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Tijolo Ecológico

Guia completo sobre construção sustentável com tijolos de solo-cimento.

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Matéria-Prima Tijolo Ecológico

Guia técnico de matéria-prima para Tijolo Ecológico: seleção de solo ideal, granulometria, traço de cimento, relação água/cimento e controle de qualidade.

Resumo Executivo

A qualidade final de um tijolo ecológico (solo-cimento) é diretamente proporcional à qualificação e proporção de suas matérias-primas. Diferente da construção convencional, onde os componentes são industrializados e padronizados, na alvenaria ecológica o principal insumo — o solo — é variável e exige análise técnica rigorosa para garantir a estabilização físico-química necessária.

Este artigo detalha os três pilares fundamentais da mistura: o solo (agregado), o cimento (aglomerante) e a água (reagente), além de abordar o uso de aditivos e pigmentos. Compreender a granulometria, os limites de plasticidade e a química da hidratação é essencial para qualquer engenheiro ou fabricante que busque conformidade com as normas brasileiras, como a NBR 8491.

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1. O Solo: O Corpo do Tijolo

O solo representa entre 85% a 92% do volume total da mistura de um tijolo ecológico. Portanto, sua seleção não é apenas uma questão econômica, mas o fator determinante da durabilidade e resistência à compressão da peça. Tecnicamente, não utilizamos "terra", mas sim solo, que é um material mineral resultante da decomposição das rochas.

1.1. Granulometria e Composição Mineralógica

Para a produção de solo-cimento, o solo ideal é o arenoso-argiloso. A distribuição granulométrica deve permitir um empacotamento denso das partículas, onde os grãos menores ocupam os vazios deixados pelos maiores.

Fração Porcentagem Ideal Função Técnica
Areia (0,05mm a 2mm) 60% a 80% Esqueleto estrutural, reduz a retração linear.
Silte e Argila (< 0,05mm) 20% a 40% Preenchimento de vazios e plasticidade para prensagem.

O excesso de argila (acima de 45%) é prejudicial pois causa alta retração durante a cura, gerando fissuras e trincas. Já o excesso de areia dificulta a coesão inicial da peça recém-saída da prensa (resistência "verde"), fazendo com que o tijolo se quebre facilmente no manuseio.

Infográfico mostrando a separação granulométrica do solo em uma proveta: Camada de areia no fundo, silte no meio, argila no topo e água turva com matéria orgânica flutuando
Infográfico mostrando a separação granulométrica do solo em uma proveta: Camada de areia no fundo, silte no meio, argila no topo e água turva com matéria orgânica flutuando

1.2. O Perigo da Matéria Orgânica

Solos superficiais (horizonte A), ricos em húmus e microrganismos, são terminantemente proibidos. A matéria orgânica interfere quimicamente na hidratação do cimento, impedindo que ele crie as pontes de cristalização necessárias. O solo deve ser extraído de jazidas em profundidades geralmente superiores a 60cm-80cm.

2. Cimento Portland: O Aglutinante Estrutural

O cimento Portland atua como o estabilizante químico. Sua função é reagir com a água e envolver as partículas de solo, criando uma matriz rígida e impermeável. No contexto do tijolo ecológico, o teor de cimento varia geralmente entre 8% a 12% em massa.

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CP II - Composto

É o mais utilizado. Possui adições (escória ou pozolana) que conferem boa trabalhabilidade e menor calor de hidratação, ideal para a produção em larga escala.

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CP V - ARI

Cimento de Alta Resistência Inicial. Indicado para fábricas que precisam de desforma e empilhamento rápido, atingindo resistências elevadas em poucos dias.

2.1. A Reação Solo-Cimento

Diferente do concreto, onde o cimento une brita e areia, no solo-cimento ocorre uma troca iônica entre o cimento e os minerais de argila (especialmente as argilas de atividade mais alta). Isso gera um material que não se desfaz mais em presença de água após a cura completa.

Macro comparativa: À esquerda, solo puro desmanchando na água. À direita, corpo de prova de solo-cimento intacto após submersão
Macro comparativa: À esquerda, solo puro desmanchando na água. À direita, corpo de prova de solo-cimento intacto após submersão

3. Água: Qualidade e Relação Água/Cimento

A água é o componente que inicia a reação química do cimento. No tijolo ecológico, a quantidade de água é muito menor do que no concreto convencional, pois o processo de prensagem exige o que chamamos de umidade ótima.

water_drop
PH 6-8
Faixa ideal de acidez da água
warning
< 2g/L
Limite de sólidos totais dissolvidos

3.1. O Conceito de Umidade Ótima

A mistura deve estar em um estado de "farofa úmida". Se houver água demais, o tijolo gruda na prensa e "explode" por expansão hidráulica ao sair. Se houver água de menos, o cimento não hidrata completamente e o tijolo esfarela. A umidade ideal é aquela que permite a máxima compactação com o menor volume de vazios.

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Dica Técnica: A água utilizada deve ser potável. Águas com excesso de sulfatos ou cloretos podem causar eflorescências (manchas brancas) e comprometer a estrutura interna do tijolo a longo prazo.

4. Aditivos e Pigmentação

Embora não sejam obrigatórios, os aditivos podem melhorar a performance da matéria-prima base.

4.1. Oxidos de Ferro

Para garantir a estética, utilizam-se pigmentos inorgânicos (ex: pó xadrez ou similares industriais). O pigmento deve ser adicionado em no máximo 5% em relação à massa do cimento para não prejudicar a resistência. A mistura deve ser feita a seco para garantir a homogeneidade da cor.

4.2. Aditivos Hidrofugantes

Podem ser adicionados à massa para reduzir a absorção de água capilar do tijolo acabado. Isso é especialmente útil em regiões com alta umidade ou para tijolos que ficarão aparentes sem reboco.

Mostruário com tijolos de solo cimento de diferentes cores
Mostruário com tijolos de solo cimento de diferentes cores

5. Ensaios de Caracterização de Campo e Laboratório

Antes de iniciar a produção, a matéria-prima deve passar por validações técnicas.

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Teste da Garrafa (Ensaio de Sedimentação)

Um método simples para verificar as proporções de areia e argila no campo. Mistura-se solo e água em uma garrafa transparente, agita-se e deixa-se descansar por 24 horas. As camadas se separam por densidade.

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Teste da "Bolinha" ou "Chouriço"

Mede a plasticidade. Se for impossível formar um pequeno cilindro (chouriço) com o solo úmido, ele é arenoso demais. Se o cilindro for muito elástico e não quebrar, é argiloso demais.

5.1. Normas Técnicas de Referência

As principais normas que regem a qualidade e os ensaios da matéria-prima e do produto final são:

  • NBR 8491: Tijolo de solo-cimento - Requisitos.
  • NBR 8492: Tijolo de solo-cimento - Determinação da resistência à compressão e da absorção de água.
  • NBR 12023: Solo-cimento - Ensaio de compactação.

6. Logística e Armazenamento de Insumos

A conservação da matéria-prima é vital para evitar desperdícios e variações na qualidade da produção.

Material Forma de Armazenamento Ponto de Atenção
Solo Pátio coberto ou lonado. Evitar umidade excessiva por chuva (dificulta a dosagem).
Cimento Local seco, sobre pallets de madeira. Prazo de validade e empilhamento máximo de 10 sacos.
Água Reservatórios limpos e fechados. Evitar proliferação de algas ou entrada de terra.

Perguntas Frequentes (FAQ)

help Posso usar qualquer terra do meu terreno?

Não. A terra deve ser submetida a testes granulométricos. Solos com muita matéria orgânica (camada superficial) ou solos extremamente argilosos (que racham ao secar) ou puramente arenosos não servem sem correção com outros tipos de solo ou teores altíssimos de cimento, o que inviabiliza o projeto.

help Qual a proporção (traço) padrão de cimento?

O traço mais comum é o 1:10 (uma medida de cimento para 10 de solo). Entretanto, isso pode variar de 1:8 a 1:12 dependendo da qualidade do solo e da resistência desejada (MPa). Somente ensaios de compressão em laboratório podem confirmar o traço ideal para a sua matéria-prima específica.

help O que acontece se eu usar areia de construção em vez de solo?

A areia pura não possui "finos" (argila) para dar liga no estado verde (antes da cura). O tijolo sairia da prensa e se desmancharia ao ser tocado. O solo-cimento precisa da fração argilosa para funcionar como um lubrificante e colante inicial entre os grãos de areia.

help Preciso peneirar o solo?

Sim, obrigatoriamente. O solo deve passar por uma peneira com malha de abertura entre 4,8mm e 6,3mm para remover pedras, raízes e torrões de argila que não se desfizeram. Isso garante uma textura uniforme e evita quebras na prensa.

help Posso produzir tijolos durante o inverno ou épocas de chuva?

Sim, desde que sua matéria-prima (solo) esteja estocada em local seco. O maior desafio é o controle da umidade. Se o solo chegar muito úmido da jazida, você não conseguirá atingir a "umidade ótima" para prensagem, pois ele já terá passado do ponto ideal apenas com a água natural do terreno.

help O uso de cal é recomendado?

A cal pode ser usada como um estabilizante complementar, especialmente em solos muito argilosos, para reduzir a plasticidade. No entanto, na maioria dos processos industriais de tijolo ecológico, utiliza-se apenas o cimento Portland pela rapidez de cura e ganho de resistência.

Checklist de Seleção de Matéria-Prima

  • Solo: Ausência total de raízes, folhas ou húmus (extração profunda).
  • Solo: Granulometria visualmente equilibrada (nem pó puro, nem areia pura).
  • Cimento: Sacos íntegros, sem pelotas (sinal de hidratação prévia).
  • Água: Incolor, inodora e sem resíduos de óleos.
  • Peneiramento: Solo passado em malha de no máximo 1/4 de polegada.
  • Homogeneização: Mistura do solo e cimento perfeitamente uniforme antes da adição de água.

Bibliografia e Fontes Técnicas

  • gavel ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS. NBR 8491: Tijolo de solo-cimento - Requisitos. Rio de Janeiro, 2012.
  • menu_book GRANDE, Frederico M. Fabricação de Tijolos de Solo-Cimento com Prensa Manual. Ed. UFSCar, 2003.
  • description ABC P - Associação Brasileira de Cimento Portland. Dosagem de Solo-Cimento: Normas e Práticas.
  • school CAPUTO, Homero Pinto. Mecânica dos Solos e suas Aplicações. LTC Editora, 2015.
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Tags:
solo-cimento traço tijolo ecológico granulometria solo cimento portland umidade ótima
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